quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

EU E DEUS (Texto do meu irmão Walter)



Era preciso reduzir o leitor a pó. Mostrar-lhe toda sua insignificância para que o ônibus pudesse avançar sobre o tapete vermelho que cobre toda a ponte do Mar Pequeno, numa velocidade contínua, segurando com mãos firmes e em riste, todos os pensamentos que jorravam sobre a beleza da visão de pouco mar, pouca terra, circulando meio tonta, diante de parte da Orla, iluminada artificialmente, pela inteligência e ação... Eu e Deus no Sertão, a música continuava a zunir no ouvido, os pensamentos  pousavam e voavam na mesma velocidade do ônibus,velocidade quase constante,  incomum para uma sexta- feira à noite... Noite quente... De uma brisa morna, que a força do atrito do ar com o ônibus, criava. Era preciso domesticar o pensamento... Era preciso chegar à Rua Padre Anchieta, de São Vicente... O nome da Rua dera origem a uma redação lá pelo início ou fim da década de 60. "Padre Anchieta - Um Santo" foi assim que o menino nominou sua redação... Não lhe explicaram que o catequista viria para destruir os conceitos originais e, como o leitor, seria reduzido igualmente a pó, pela ignorância de não saber que em qualquer embate, não há integralidade que resista, e o certo é a mistura, o híbrido. O híbrido, agora, pode ser colocado como única "verdade" absoluta.
E os pensamentos continuavam a pousar e voar pousava e voava, um a um, gozando de extraordinária liberdade. Impossível capturá-los. 
O rosnar do ônibus, o som do motor quase limpo, quase sereno... Quase que regado a óleo viscoso brilhante... Um ou outro sinal desavisado da velocidade e destino, um ou outro carro igualmente perturbados, absolutisavam a velocidade soberana do ônibus. A sensação quente de delírio apaziguado, de transcendência de limites já determinados, fazia solo para o pensamento.
Eu e Deus no Sertão... Não havia solidão, eu estava acompanhado pelo artista, pelo arquiteto de toda a obra... A obra se tornava comum, era impossível, todo o tempo, num ir e vir, sobre o mesmo tapete vermelho, deixar de desgastá-lo, torná-lo anêmico.
O  ônibus estava na velocidade inversamente proporcional para uma sexta-feira a noite, mas um olhar mais atento diria que a velocidade era  a normal, para a já anunciada madrugada de sábado. Não havia sincronismo no trânsito, as tantas pessoas já  ocupavam suas locações...se infiltravam em suas próprias criações. Quase todos já estavam em suas casas tradicionais, ou de fachadas, igualmente reais: Casas de prazer e discórdia, casas de dor e sofrimento, mas casas, construídas em todas às sextas feiras, em todos os dias, pelos tijolos, cimento que, sendo igualmente distribuídos, permitiam todas as construções.
 Eu e Deus saíamos da padaria, compramos 0,95 centavos de pão, entramos no carro com dois amigos, nos despedimos dos dois e enfim, sós, pegamos o ônibus com sentimento de plenitude.  Então, o nome Anchieta, transformou-se num nome tão importante como todos os outros, comuns.
Então não era mais necessário escrever porque o brilho se perderia nas construções rotineiras das palavras e o brilho só poderia ser substância se cegasse, podendo brilhar sem comparativos.
e os pensamentos continuavam a pousar e a voar, não queriam ser capturados pela escrita, ousaria deixar que todos os olhares definissem suas visões.
Queria ousar, mas tinha a necessidade de capturar, aprisionar, como hábito antinatural, adquirido. Mas a visão teimava em voar como os pensamentos.
- Voa, voa e transforma-te em outros e outros sentimentos, definindo o tempo, onde tudo se transforma e se resolve.
Eu e Deus resolvemos descer em meio a todos os movimentos, todos os ruídos, todos os ventos, todas as orlas, todas as brisas, paramos o tempo, afogamos todos os pensamentos e descalços fomos caminhando rumo à praia para ouvir o que o mar tinha a dizer sobre isto.


Walter Parreira   mtb 33036